
“Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas.”
José Saramago in As Intermitências da Morte

“Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas.”
José Saramago in As Intermitências da Morte

“a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.”
José Saramago in As Intermitências da Morte

“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.”
José Saramago in As Intermitências da Morte
Ano Novo, Vida Nova. E, por isso, aqui vai a primeira sugestão de 2011:
As Intermitências da Morte
José Saramago
(Caminho)

Como ouvi certa vez o próprio Saramago contar, ele propõe-nos no início de cada livro um desafio às leis da lógica, da normalidade e da acostumada realidade. Com a promessa de que se o aceitarmos tudo a partir daí nos fará sentido.
E esta obra não é excepção. A ideia genial e arrojada que nos traz esta obra é a de que a morte decide no novo ano, subitamente, deixar de matar. Inicialmente recebida com satisfação, esta medida vem dar lugar ao caos em pouco tempo. Com uma intensa abordagem sociológica, como o Nobel nos habituou, ele explora os mais profundos sentimentos e reacções humanas. Lares e hospitais vêm-se atolados de doentes suspensos, que estão tão vivos como mortos, mas que a morte se recusa a levar; e as agências funerárias ficam à beira da falência.
Uma história original e arrebatadora, centrada na enigmática figura da morte. Magnífico. A par do "Ensaio sobre a Cegueira", um dos melhores livros do autor.
"se não voltarmos a morrer não temos futuro."

“há ocasiões assim, acreditamos na importância do que dissemos ou escrevemos até um certo ponto, apenas porque não foi possível calar os sons ou apagar os traços, mas entra-nos no corpo a tentação da mudez, a fascinação da imobilidade, estar como estão os deuses, calados e quietos, assistindo apenas.”
José Saramago in O Ano da Morte de Ricardo Reis

Acabo de saber pelas notícias que faleceu hoje o Prémio Nobel 1998 português José Saramago, aos 87 anos. Notícia que me entristece e deixa um vazio.
O escritor nascido na Golegã a 16 de Novembro de 1922, morre hoje em Lanzarote, sua morada habitual.
Publicou o seu primeiro romance aos 25 anos - "Terra do Pecado". Porém, o estilo próprio de Saramago, indiferente às convenções literárias, pleno de responsabilidade e sem contemplações, surgiria apenas com "Levantado do Chão", obra em que é descrita a vida difícil das populações alentejanas. Dois anos depois, é publicado o livro que marcaria para sempre a sua carreira: "Memorial do Convento", que hoje faz parte do plano curricular do 12ºano, e que é um romance histórico sobre a construção do imponente Convento de Mafra.
A enorme volatilidade da sua imaginação revela-se nas suas magníficas obras como: "O Ano da Morte de Ricardo Reis", "A Jangada de Pedra", "História do Cerco de Lisboa" e "As Intermitências da Morte".
"Ensaio Sobre a Cegueira" é das minhas obras favoritas e foi recentemente adaptado ao cinema.
Deixou também alguns livros que causaram polémica, como "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", que foi mesmo censurado no nosso país e foi motivo de afastamento do escritor do nosso país e evasão para terras espanholas, e "Caim". Este é o último livro do autor e mostra, mais uma vez, a genialidade da sua escrita e a força do seu pensamento.
Acabaram-se as novas obras deste magnífico escritor. Perdeu-se hoje um pedaço enorme da literatura portuguesa. Um escritor ousado e inconformado, inteiro em tudo o que fazia. Deixa um enorme vazio que só pode ser colmatado entre as suas páginas, palavras e letras. Que são ele próprio. Resta apenas a saudade. E o nosso eterno obrigada.

Deixo os links das obras que comentei neste blog, para quem possa sentir-se suscitado a reler ou conhecer Saramago e, depois, um excerto da sua obra:
http://biblioteca_vania.blogs.sapo.pt/78849.html
http://biblioteca_vania.blogs.sapo.pt/56578.html
http://biblioteca_vania.blogs.sapo.pt/47110.html
http://biblioteca_vania.blogs.sapo.pt/31342.html

“lastimamos o homem que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodígio do seu convívio e da graça da sua presença humana, somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e seu poder criador, a esses deu-lhes o destino uma estranha formosura, que não morre, o resto é com o génio”
José Saramago in O Ano da Morte de Ricardo Reis

“A rapariga magra acabou a sopa, pousa a colher, a sua mão direita vai afagar, como um animalzinho doméstico, a mão esquerda que descansa no colo. Então Ricardo Reis, surpreendido pela sua própria descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel, recorda-se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora agarra a esquerda e vai pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e ali a deixa ficar, ao lado do prato, assistindo à refeição, os longos dedos estendidos, pálidos, ausentes.”
José Saramago in O Ano da Morte de Ricardo Reis
Neste novo ano, a sugestão não poderia ser melhor:
Caim
José Saramago
(Caminho)

Mais uma extraordinária obra do nosso grande Prémio Nobel. Neste seu mais recente livro, Saramago guia-nos, ao sabor exclusivo da sua vontade, sem a limitação do tempo cronológico ou do espaço, por alguns dos episódios mais emblemáticos do Antigo Testamento, de todos conhecidos, e permite-se recriá-los, interpretá-los e criticá-los. É pela personagem de Caim que vamos conhecendo este inóspito mundo de Deus e vivemos episódios como a criação divina e o pecado original, o sacrifício do filho de Abrãao, a torre de Babel e a arca de Noé. Através desta recriação da história bíblica, Saramago tece uma intensa crítica e apresenta-nos, da forma mais crua e óbvia, as leis divinas, a sua noção distorcida da justiça, o temor e o respeito submisso que muitos dos homens prestam a esse ser, a omnipotência que esconde a intolerância. Um livro repleto da provocação inteligente a que Saramago nos habituou. Já criticara a espécie humana em "Ensaio sobre a Cegueira", agora chegou a vez de criticar Deus. Uma obra que nos oferece a deliciosa ironia e perspicácia do autor. Não percam!
"Para caim nunca haverá alegria, caim é o que matou o irmão, caim é o que nasceu para ver o inenarrável, caim é o que odeia deus."

José Saramago in O Ano da Morte de Ricardo Reis
